Red-haired druid holding a torch and staff in a rune-carved cave

Tuatha Dé Lee

Poesia, Magia, Literatura

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    Sala de aula, 24 Ago ’26

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    Que caia sobre mim o terrível raio da desilusão.

    Que me atinja na testa a flecha da imbecilidade.

    Se não posso mostrar a ninguém o que tenho de melhor, que diabos faço nesta porra de planeta desgraçado?

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    Se tiver todas as credenciais e títulos,

    será que quererão saber o que carrego?

    Poderia, finalmente, um reconhecido

    ser reconhecido?

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    Isso tem algum valor?

    Alguma valia?

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    De que importa ler isso ou aquilo,

    escrever, defender, publicar,

    e ver tudo isso sem nenhuma luz,

    nenhuma Awen?

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    É possível que as coisas nunca mudem,

    e eu esteja fadado a ser apenas esse monstro,

    esquizoide e deformado,

    ridículo e retardado,

    um rabisco de um potencial que ninguém quis ver?

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    Hoje me apago. Vou me ater aos afazeres.

    A guerra foi perdida.

    O osso foi roído.

    Com o rabo entre as patas,

    meto-me na escuridão do anonimato.

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    Meto-me na bruma,

    em direção ao bosque de Cerridwen,

    a me jogar no caldeirão.

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    Odeio esses dias de metal,

    de machado.

    Vou-me embora daqui,

    rumo a uma casa triste,

    de gente burra,

    de um lugar feio,

    de sangue pobre,

    de mente pequena,

    de olhos fracos,

    de mãos quebradas,

    de miséria e mesmice.

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    Vou-me embora.

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    Sala de aula, fim da noite, 17 Set ’26

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    “Aristóteles não é Ronaldinho Gaúcho nem Garrincha.

    A ecologia da sala diz que a aula acabou.
    Leiam a Poética.”

    (MONTEIRO, André)

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    Amor no Coração,

    Lee

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    Quarto, insônia, 9 Jul ’26

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    Não sei mais o que é dormir. Estou sempre desperto, ativado, como se já não estivesse encarnado. Quando finalmente vem o sono do corpo, a atividade só muda de lado. Deixo o espaço/tempo, o corpo amarelo, e passo a agir no tempo/espaço, vagando por tormentas e violências que não se concluem.
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    Os dias são cheios de vazio; os ruídos, um grande silêncio. Não há vida neste lugar. Escrevo hoje sabendo que ninguém vai ler, com a alegria covarde de botar pra fora sem receber aplauso, sem levantar copa, sem ganhar um tostão.
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    Escrevo com a tristeza de mil vidas neste mundo onde só o raso atrai as multidões. Esses seres gostam de disputar espaços pequenos, ignorando o vasto que lhes é oferecido. Por algum motivo, sinto essa angústia de querer ser reconhecido e valorizado, um vão ímpeto romântico que me destroi a míudo, mas nunca cumpre seu labor.
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    Quem escreve quer viver. Quer existir. Mas palavras se tornaram o caminho mais certeiro para a irrelevância. Esses macacos querem imagens, coisas que brilham e fazem barulho, coisas que os façam esquecer que não são macacos.
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    Seu pecado não é o excesso; é o vício em ser nada. Eles matam e morrem para ser insignificantes. Pagam fortunas para não terem valor algum um para o outro. Pagam uns aos outros para se humilhar, para se apagar, para apressar a morte da qual tanto fogem, mas que nunca chega.
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    Estou preso num mundo de mortos, ossadas que se perfumam para se comer e adoecer ao som de música. Estou nos trilhos por onde não passam carros nem almas. Estou no deserto onde só o vento ainda circula. Já não há aqui o que se fazer.

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    Todos os caminhos foram caminhados. Todas as melodias foram cantadas. Todos os amores foram trocados por paixões sem cor, nuvens negras que se movem apenas para chover no molhado.
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    Mais uma vez estou aqui,
    à deriva diante de um altar,
    escrevendo o que ninguém quer ler,
    sem descanso nem raiz,
    sem ilusão de final feliz,
    sem amargura nem sorriso,
    só um fantasma,
    que os insetos não deixam dormir,
    e os deuses não deixam acordar.
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    Tuatha Dé Bless,
    Lee
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